História e Carreira, Parte 1: Infância e estudos

Nota
Esse texto é um resumo sobre a minha carreira, escolhas e desafios que passei. É também um desabafo, um exercício para botar para fora todo o desconforto relacionado a minha profissão, vida e algumas escolhas que fiz. Meu objetivo aqui não é ofender ou culpar ninguém pelos problemas que tive, tenho ou ainda vou ter. Não usarei aqui nomes reais, usarei pseudonimos para pessoas e empresas. Vou dividir esse texto em pelo menos 3 partes e essa primeira que fala sobre como minha infância e os estudos influenciaram na minha escolha de carreira. Boa leitura.

Acredito que todo profissional de TI começa a se perguntar em algum momento da carreira se está na profissão certa, e se nota duvidando se realmente merece estar onde chegou, se sente cansado, sem vontade, desejando que já seja final de sexta e que segunda nunca volte a chegar. Reuniões se tornaram um sofrimento sem fim, assim como uma simples conversa com os colegas. Qualquer coisa errada é motivo para se sentir irritado, além disso, tudo que trazia um pouco de prazer deixou de ser gratificante. Exercícios, hobbies, filmes, séries, livros, quadrinhos, passear com o cachorro ou brincar com os filhos. Qualquer atividade gasta tanta energia que você quer evitá-las a qualquer custo. A vontade é de desistir, de largar tudo e sumir. É como estar preso no meio de um labirinto sem saídas.

Eu estive e talvez ainda esteja nessa situação, e vou contar um pouco do porquê e como estou tentando melhorar.

Infância

Começando pelo início, como vim parar nessa área? Fui uma criança muito quieta e tímida, mas bastante curiosa. Sempre tive o costume de tentar descobrir como os meus brinquedos eram feitos e como funcionavam. Para isso eu desmontava tudo, deixando meus pais loucos e furiosos comigo. Admito que a maioria dos brinquedos não voltava a funcionar depois. Não eram só os brinquedos que sofriam comigo. Eu com uma tesoura na mão era um perigo. Não restava uma toalha sem ter a ponta cortada em casa. Com fósforos então? Deixa para lá. Não, eu nunca pus fogo em casa. 🔥

Gradualmente minha curiosidade foi migrando para o ambiente virtual. Ganhei meu primeiro videogame com cerca de 7 anos. Era um Atari 2600 se me recordo bem. O primeiro computador veio logo em seguida. Esse acredito ser um i386 com Windows 3.1X. Ambos eram usados com um pouco de supervisão, já que nessa época um computador era algo muito caro e os videogames constumavam estragar a TV. Se você foi uma criança nos anos 80 ou 90 provavelmente já ouviu essa lorota vinda de seus pais. Com 13 ou 14 anos, já no ensino médio, lembro de ter tido acesso a algumas apostilas sobre HTML. Como a Internet já era acessível em casa na época, também cheguei a pesquisar sobre o assunto no Cadê. Esse era o buscador que usávamos na época já que o Google não existia.

Um Atari 2600

Ainda na “aborrecência”, conheci uma ferramenta para criar jogos, chamada RPG Maker. Essa foi a fagulha que começou todo o incêndio. Enfim descobri o que eu queria fazer pelo resto da minha vida. Ou será que não?

Nunca cheguei a terminar um jogo completo já que roteiro e game design nunca foram o meu forte. Programação ainda não era algo no meu radar, já que as primeiras versões do Maker não tinham nenhum tipo de scripting via código. Isso mudou quando saiu a versão XP, foi quando finalmente tive meu primeiro contato com uma linguagem de programação, o RGSS ou Ruby Game Scripting System, que era uma linguagem de scripting baseada em Ruby. Na época, eu não consegui absorver bem os conceitos de programação. Variáveis? Funções? ifs e elses? O que raios é tudo isso e como isso vira um jogo? Devido ao contato com o RPG Maker, aprendi mais sobre HTML e CSS visando fazer um site sobre a ferramenta, que obviamente também não foi muito longe. Projetos iniciados e nunca acabados é uma constante na vida de muitos desenvolvedores. 😉

Interface do RPG Maker XP

No início dos anos 2000 ter Internet “rápida” em casa era algo muito raro. Só tive Internet Banda Larga, ou ADSL, quando já estava para entrar na faculdade. Então, me virava como podia. Sofria baixando os assets e executáveis do RPG Maker via conexão discada durante os domingos ou madrugadas. Isso quando meus pais e irmã deixavam. Outra forma de conseguir mais conteúdo para consumir e arquivos para usar era quando meu pai trabalhava aos sábados. Nesses dias eu podia ir junto para usar a ASDL da empresa em que ele trabalhava. Para complicar mais ainda, existia outro problema da época: como transferir os arquivos do PC da empresa para o meu de casa? Não existia Google Drive nem Dropbox, então eu normalmente usava disquetes. Comprimia os dados no formato RAR e dividia em vários arquivos para caber em várias mídias de pouco mais de 1 megabyte. Ou, usava CDs R e RW, que tanto as mídias quanto os leitores eram bem caros e não tão acessíveis.

Info
Se você está se perguntando por quê só usávamos a Internet nos domingos e madrugadas, é porque a conexão discada era uma ligação telefônica como qualquer outra. Ou seja, também segurava a linha ocupada enquanto estávamos conectados. Nas madrugadas e aos domingos a ligação só contava como um único pulso, não importando quanto tempo a conexão ficasse aberta. Seguindo essas condições de acesso a conta de telefone não ficava astronômica, e a linha não ficava bloqueada nos horários em que sua tia ligava pra sua mãe para contar as novidades.

No ensino médio cheguei a pensar em cursar Biologia, já que sempre gostei de animais. Mas, a paixão por tecnologia sempre foi maior e mais forte, e a promessa do dinheiro também teve seu peso. Claro que tinha tudo para dar errado para mim. Eu nunca fui um aluno dedicado e inteligente, e sempre tive dificuldades para prestar atenção nas aulas. Eu era péssimo em Matemática e Física, as ditas disciplinas base da computação. Mesmo assim, arrisquei o meu futuro nessa área. Ainda nesse assunto sobre estudo, hoje consigo perceber que a minha dificuldade com algumas matérias não tinha relação com a minha falta de capacidade ou inteligencia. A forma como nos faziam aprender foi a vilã para mim. O ensino médio era, e provavelmente ainda é, totalmente focado em fazer o aluno passar no vestibular. Era orientado a “decoreba”. Para mim, a melhor forma de aprender sempre foi fazendo, e isso combinou bem com a profissão.

Enfim, restava escolher qual curso fazer. Eu pensava em Engenharia Mecatrônica, mas esse curso só existia em uma universidade particular aqui em Curitiba. Então, acabei escolhendo o curso de Ciência da Computação na universidade pública, e foi nesse curso que passei.

Faculdade

Entrei na faculdade com 17 anos, idade que acredito ser precoce para decidir qual carreira seguir. Contudo, hoje ainda acredito que acertei escolhendo Ciência da Computação, mesmo sendo um curso muito puxado e quase totalmente voltado a formar acadêmicos. Por esse e outros motivos eu me sentia um peixe fora d’água no meio dos outros alunos. Meus objetivos pareciam muito diferentes em relação aos deles. Meus colegas queriam ser professores ou pesquisadores, tentar um concurso público, entrar numa multinacional e de alguma forma ter uma boa estabilidade. Claro, existiam exceções. Eu não queria nada disso, eu queria trabalhar com desenvolvimento de jogos e ainda não tinha nenhuma ideia de como fazer acontecer.

Estudei gamedev por conta própria em casa e nos laboratórios durante os intervalos entre as aulas, que eram de tarde e a noite. Lembro apenas de alguns dos meus projetos, como uma implementação simples de um mapa 2D baseado em tiles que foi construído em Pascal com a biblioteca Graph. Infelizmente não guardei nenhum código desses projetos, pois acreditava que não era nada importante. Nesse período, eu também me envolvi com configuração e desenvolvimento de servidores de alguns MMORPGs, como Ragnarok Online (RO) e Tibia. Inclusive fiz parte da equipe do projeto Cronus Emulator por pouco tempo, e fiz parte da staff de dois servidores privados de RO. Cheguei a mexer com customizações no client, launcher e server, adicionando assets customizados, itens, monstros e quests. Também comecei um launcher customizado que nchegou a vingar, e estudei o projeto OpenKore para tentar achar uma forma de bloquear os bots.

Ragnarok Online: Um dia normal em Prontera
Dica
Sempre guarde seus códigos. Se você ainda não sabe, aprenda a usar o git ou algum outro CVS.

Voltando, na faculdade aprendi muito sobre as bases de várias áreas da computação. Conheci e aprendi a usar Linux e suas ferramentas, que era até então um mundo completamente desconhecido. Quanto as linguagens, eu praticamente só aprendi Pascal e C em profundidade. Ter aprendido estruturas de dados, algoritmos, redes e outras tantas disciplinas em C sem dúvida me tornou um programador muito melhor. É por causa desse alicerce sólido que hoje consigo aprender outras linguagens por conta própria e sem muita dificuldade. Sem falar que carrego e uso até hoje muitos dos conceitos aprendidos durante as aulas, como algoritmos, banco de dados, redes e sistemas distribuídos. Preciso mencionar também que tive muitos bons professores para me ajudar a me desenvolver. Só me arrependo de algumas poucas decisões e caminhos que tomei. Talvez faria outro TCC, com outro assunto, talvez em sistemas distribuídos. Apesar de todos os fatores bons, infelizmente a faculdade não me preparou para o mercado de trabalho como eu esperava. Algumas ferramentas ou conceitos básicos eu só aprendi nos primeiros empregos. Por exemplo, controle de versões, gerenciamento de dependências e testes.

Ingressando no mercado de trabalho

Nos dois últimos anos do curso comecei a procurar um estágio. Algumas das opções eram trabalhar numa grande multinacional do ramo do petróleo e em alguma das inúmeras empresas que usam SAP. Nada interessante. Mas, um dia vi um anúncio de uma empresa no mural da secretaria, que frequentemente procurava profissionais na universidade e que foi fundada por um ex-professor. Claro, a oportunidade não tinha nada a ver com desenvolvimento de jogos. Eu sabia que provavelmente seria uma vaga para trabalhar com Delphi, para programar em Object Pascal. Como eu precisava fazer o estágio obrigatório e começar a ganhar uma graninha, corri atrás, me cadastrei e consegui uma entrevista. Assim comecei a minha vida profissional enquanto tentava terminar minha formação. Foram dois longos anos com 5 horas de estágio e mais as aulas. Às vezes chegando quase meia-noite em casa para estar de pé novamente de manhã cedo.

Ficamos por aqui. No próximo artigo continuo essa história de onde paramos. Até lá.